Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
No Espírito Santo, os relatos
de experiências transformadoras
 

Certamente foram as terras capixabas o terreno mais fértil para as ações do projeto de Educação em Valores Humanos. As primeiras delas ocorreram na rede pública de ensino de diversos municípios do Estado. Não demorou muito, a EVH e suas propriedades avançaram, conquistaram novos espaços. Ganharam adeptos. Por meio do desembargador Sérgio Bizzotto Pessoa de Mendonça, Presidente do Tribunal de Justiça do Estado, foram realizados três treinamentos em agosto (nos dias 22 e 29) e setembro (5) de 2014, mobilizando servidores e magistrados. Em cada turma, a duração do curso foi de oito horas, em processo conduzido pelo professor Gonçalo Medeiros, graduado em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), fundador e diretor do Instituto de Educação em Valores Humanos.

Mas esta não foi a primeira passagem da EVH pela casa. Em 18 de maio de 2012, Gonçalo já havia ministrado palestra no TJ-ES. Naquela ocasião, o evento foi organizado pela desembargadora Catharina Maria Novaes Barcellos, supervisora da Infância e Juventude do órgão, onde profissionais lidam quase que diariamente com crianças e adolescentes vítimas de maus tratos. Por isso mesmo, correm o risco inerente de se 'acostumarem' com os relatos de violência. O foco da ação, neste caso, explicou o professor, era promover também a humanização da Justiça. "Não podemos nos deixar anestesiar com o tempo. Todos os dias temos que avivar o melhor que um dia idealizamos, qual é a nossa vontade e capacidade de ajudar os necessitados", reforçou o Presidente do Tribunal na época, desembargador Pedro Valls Feu Rosa.

De 4 a 6 de setembro de 2013 foi a vez de o Ministério Público do Estado do Espírito Santo sediar o Curso de Educação em Valores Humanos. Além de apresentar a metodologia de ensino e capacitar os envolvidos a promoverem a humanização das relações, a meta era despertar a consciência sobre os antagonismos internos que prejudicam a identificação, condução e a resolução de conflitos. Isto é, abrir a percepção dos servidores e magistrados em relação aos valores humanos. Desenvolver o olhar para além do que determinam as frias letras da Lei ou do que já consta da cristalizada jurisprudência. Tal como ocorrera no Tribunal, as atividades desenvolvidas tiveram grande receptividade entre os membros do Ministério Público. 

O curso realizado em setembro de 2013, com duração de três dias, foi um desdobramento natural da primeira visita de Gonçalo Medeiros ao MP-ES em 2011, quando participou como palestrante do '3º Encontro Estadual de Desenvolvimento Comunitário - Compartilhar é a Evolução da Cidadania', realizado em Vitória, capital capixaba. Ali também esteve em 1º de fevereiro de 2013, para palestra que fez parte da programação do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional, evento que teve como objetivo motivar, integrar e contribuir para o desenvolvimento de uma cultura de valores humanos nas relações de trabalho. 

Muitas outras atividades já foram realizadas no Espírito Santo. Em 22 de novembro de 2011, por exemplo, ocorreu no município da Serra o I Seminário de Educação em Valores Humanos, uma realização da prefeitura municipal e da ArcelorMittal, com a chancela e a participação da Unesco, braço da ONU para a educação, ciência e cultura. Além do prefeito e do secretário de Educação da Serra, o evento contou com a presença do governador do Estado, Renato Casagrande, e do coordenador de Educação da Unesco, Paolo Fontani. Naquele mesmo ano, na mesma cidade, nos meses de março e abril foram realizadas ações em unidades municipais de ensino, atingindo 1.210 servidores (a maioria professores) e 12.503 estudantes. Em setembro de 2012, Gonçalo participou de treinamento de agentes socioeducativos, técnicos, subgerentes e coordenadores do Iases (Instituto de Atendimento Sócio-Educativo do ES), também na Serra. Em 1º de março de 2013, foi um dos palestrantes do Encontro Estadual de Educação, realizado na capital do Estado, pelo MEC e Ministério Público.

Por onde passa, a EVH deixa suas marcas. E surpreende. Em agosto de 2009, o programa começou a ser aplicado, ainda em formato piloto, em três unidades da Serra: na Escola de Ensino Fundamental (EMEF) Julite Miranda Freitas, em Nova Almeida; na EMEF Jacaraípe, no bairro de mesmo nome; e no Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Professora Maria José do Nascimento, em São Domingos. Cerca de 1.700 alunos estabeleceram os primeiros contatos com a nova filosofia de aprendizagem, sem que houvesse alteração do conteúdo básico dos currículos. O cultivo do bem começou a ser feito. E as primeiras colheitas não demoraram a ocorrer. “Antes, os alunos corriam muito no recreio. Esbarravam uns nos outros e nem pediam desculpas. Era uma confusão danada na hora da merenda, com empurra-empurra. Tudo era motivo de briga entre eles. Era um batendo no outro! Mas, desde que a gente implantou a utilização de livros, música e meditação, tudo mudou”, relata a diretora Deoclécia Puffal, da EMEF Jacaraípe, onde houve uma redução de 90% do número de casos de advertência por mau comportamento. 

Professora no mesmo local, Marayzes Nascimento revela que, de imediato, a mudança no comportamento dos alunos levou à melhoria do rendimento de toda a turma da 3ª série do ensino fundamental. "Isso é nítido. Eles chegavam agitados, correndo e brigando. A partir desse trabalho de transmissão dos valores humanos, começaram a ficar mais centrados. E tiveram mesmo um salto no rendimento. Em apenas três meses de atividades já era possível perceber esses avanços. Eles também estão bastante carinhosos e prestativos. Na verdade, estão mais próximos da gente". A esperança de pais e educadores é de que, uma vez expandido para toda a rede, o projeto ajude a alterar o quadro social não somente da Serra, município vizinho da capital do estado. Parte da chamada Grande Vitória, a cidade abriga cerca de 460 mil habitantes e apresenta alguns dos maiores índices de violência do Espírito Santo. "Com a professora aprendemos apenas as coisas boas. Isso é melhor do que aprender o que não deve. Antes dessas novidades serem implementadas, até as brincadeiras que fazíamos eram ligadas à violência. Agora, temos uma nova escola", revelou um aluno, quando questionado sobre o impacto do projeto. 

 

Todas essas ações tiveram como desdobramento a adesão de diversos municípios do Estado ao programa de EVH. Em outubro de 2013, o MP-ES, por meio da Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ) e do Centro de Apoio de Implementação das Políticas de Educação (Cape), assinou com a Prefeitura de Apiacá um Termo de Compromisso para a implantação do programa Educação em Valores Humanos. A secretária municipal de Educação contou a experiência vivida pelos professores de Apiacá em palestra proferida por Gonçalo Medeiros, coordenador do Instituto. “Os professores foram tocados pelo projeto. A primeira capacitação, com o professor Gonçalo, que apresentou o programa, foi um sucesso. Gostaria de parabenizar o Ministério Público pela iniciativa de implantar esse projeto que, sabemos, lá na frente vai diminuir os índices de violência, de uso de drogas, enfim, teremos resultados bastante positivos na área social. Uma ação como essa pode surtir efeito, fazer esse milagre”, avaliou Márcia Maria de Almeida.

 

A violência é hoje um ponto central no debate escolar, e foco de boa parte da atenção da EVH. Por toda a mídia - em sites, telejornais e reportagens impressas - pipocam notícias de casos de agressão entre estudantes, no quatro cantos do país. Em muitos deles, para o espanto de pais e professores, há o envolvimento de meninas. Surras que provocam escoriações e perda de dentes, xingamentos, quebra de aparelhos de celular, cortes de cabelo praticados à força. Ações injustificáveis e, na maioria das vezes, praticadas por motivos banais, como a disputa por um namorado ou pelo título de 'garota mais bonita da turma'. Como ferramenta de prevenção desse tipo de conflito, a EVH expande-se como resposta à altura da gravidade do problema. No interior do Espírito Santo, já foram assinados termos de compromisso em cidades como Cachoeiro de Itapemirim e Rio Bananal. Uma das mais recentes parcerias, fechadas em setembro de 2014, foi estabelecida em Montanha, Norte do Estado.  

“Primeiro, participamos da formação com o professor Gonçalo. Depois, a secretaria organizou o setor pedagógico para a adoção dos valores humanos. O terceiro passo foi fazer um evento para alinhar os procedimentos com os diretores de supervisão. Após, reunimo-nos com os pais de 17 estabelecimentos de ensino. Com isso, podemos dizer que o programa está implantado e funcionando", explicou a secretária municipal de Educação, Maria Luiza Rigoni da Silva. Vale lembrar que, em todos os municípios, tem papel relevante na execução do termo a empresa Arcelor/Mittal Brasil, parceira de primeira hora na promoção da Educação em Valores Humanos. A ação é desenvolvida por meio da integração de novos valores aos currículos escolares, com a promoção de práticas transformadoras a partir de vivências e técnicas que priorizam conceitos como verdade, ação correta, paz, amor e não violência. Essas, aliás, são as cinco palavras-chave da EVH.

O procurador-geral de Justiça, Eder Pontes da Silva, exaltou os resultados obtidos pelo programa em seu primeiro projeto, no município da Serra. “O Ministério Público tem dado guarida a esse projeto transformador. Os resultados são evidentes e fáceis de mensurar. Só temos a agradecer, primeiro ao professor Gonçalo, por mais uma vez estreitar esse laço, a partir desse projeto maravilhoso. Depois à doutora Fabíula, por estar à frente desse processo aqui na instituição. Sem dúvida, ele é a porta de entrada para a solução de problemas sociais imensos com os quais convivemos: a crise na educação. O programa tem em si a ideia de resgatar valores que deixamos de cultuar, como a justiça, a verdade, a ética, o amor, a solidariedade”, lembrou ele, durante a assinatura do termo em Montanha. Citada pelo procurador, Fabíula de Paula Secchin, promotora de Justiça e dirigente do Cape, destacou com entusiasmo a importância da promoção da EVH. “O Estado e os municípios investem muito na capacitação técnica dos professores. Este projeto tem o intuito de ir além disso. Busca o despertar dos reais valores que devem mover o ser humano. Não basta apenas procurar a qualificação profissional... É preciso investir em lições indispensáveis para a efetiva formação do cidadão, voltadas para as práticas do bem." 

E assim a EVH caminha a passos largos em meio aos capixabas. Além da capital Vitória e da Serra, e das cidades já citadas, como Apiacá, Cachoeiro de Itapemirim, Rio Bananal e Montanha, foram atendidos outros municípios como Linhares, Viana e Aracruz. Aos poucos, a expansão do projeto renderá frutos por todo o Estado. Os capítulos seguintes anunciam o aprofundamento das raízes do programa pelo país. Em breve, novos desafios e novidades surgirão no horizonte. Não há fronteiras ou barreiras para a propagação dos Valores Humanos. Há muitos brasis ainda a percorrer.